Nó da madeira

Thata Alves –

O nó é aquilo que deixa firmado. Consiste em apertar o que está frouxo… é o ato de estreitar.

Madeira? Ah… Madeira já é a comida que como. Não necessariamente mastigar a viga, mas em toda minha vida, a madeira nos alimentou. Respondi, quando me perguntaram, numa aula de filosofia, sobre o termo “O nó da madeira”, titulo da musica de Joao Nogueira , da qual o professor era fã.

O sinal toca e a aula se encerra. Vou para o intervalo com borboletas no estômago, na cabeça, nos olhos, que fixam um ponto e ficam imóveis. As pálpebras, para quem vê, parecem olhar o nada. Que nada: em pensamentos e mergulho em ideias de papai:

Havia um soldado na marcenaria. Ele vestia um capacete para proteção ao manusear o esmeril. Eu, quando o via, via Ogum, e não meu pai. Sacudia a cabeça tentando voltar à realidade. E a realidade era aquela. O fogo que saia da máquina parecia não queimar o guerreiro, o Ogum – Ops! – meu pai. Ele não trajava armadura. Sua pele Imbuia o protegia.

Saia mágica daquele lugar. Não como na fantástica fábrica de chocolate… Mas todo chocolate que eu ganhara viera de lá, da oficina. Minhas primeiras bonecas eram de estopa, objeto feito por fibras de algodão, liso, que no atrito de madeira e de mãos calejadas, em movimentos circulares, formam a estopa.

Era a melhor boneca, porque estava ali toda energia de meu pai, que me protegia do vento, quem dirá dos garotos…

Vi compensado virar mesa, cama, cadeira, porta, gabinete… Como que não era mágica? Mas também vi madeira virar sorriso. Das pessoas que adquiriam os móveis de meu pai. E vi também a felicidade de transformar cômodos com eco, preenchidos sob medida com os móveis do moço, guerreiro, Ogum – ops! – meu pai.

Danei a escrever nos tocos de madeira que meu pai não usava, com um lápis vermelho, apontado por estilete, que ele usava. Escrevia tudo que vinha à minha cabeça, sobre os melhores perfumes, que não eram das marcas importadas: madeira, serragem, thinner, cola, verniz, tudo cheiro raiz – e não nutella.

Eram palavras postas na madeira. Nunca pensei ser poesia.

Uma vez, no natal, pedi ao meu pai uma furadeira de presente de aniversário. Ele achou hilário e, obviamente, não deu. Disse que tinha de arrumar profissão que não a deixasse com calos na mão. Meu bico logo se formou.

Eu queria formão, serrote, martelo, prego, parafusos, buchas, trena, lixadeira, alicate, desempenadeira. Uma maleta com tudo isso.

O policial do sono me acorda – despertador é agressivo tal como.~;ç] Levanto lentamente. Vou ao banheiro e escovo os dentes.

Dentre as pernas de meu pai sento-me no chão para que ele, com o pente de madeira feito especialmente para mim, me penteasse para ir à aula, estava como Rainha…

Vejo os horários no caderno e a primeira aula é de filosofia. Eu Magda, apresento ao professor o texto pedido na aula anterior, sobre o nó na madeira. O texto que eu entregara tinha nada a ver com o assunto proposto sou de piscina, tendo a viajar…

Mas o professor se impressiona com o escrito e diz: Poesia!

Olho para meus colegas de classe sem entender. Os colegas de classe também não me entendem.

O professor convoca meus pais para uma reunião. Minha mãe se surpreende, pois nunca fora intimada à escola: Eu era exemplar!

Na sala dos professores oferecem café aos meus pais. Recebem também um pedido para acalmarem-se, estava tudo bem!

Diz o professor, na sala, que eu tinha um dom, o dom da palavra. Sempre era eu a escolhida pelo grupo a ler o texto, por ser desinibida, por ter voz firme. No grêmio era eu a protagonista das ideias mais democráticas. E também fazia texto para os amigos com mais dificuldades – e isso ele fingia não ver. Mas o meu texto sobre o nó da madeira me impressionou

A pele de minha mãe se avermelha, com o sorriso de quem sabia quem estava criando. Lembra da agenda marrom, que armazenava na prateleira do armário sem porta: casa de ferreiro espeto de pau.. um dia o  descobri. Eram os escritos da mãe, ora salmos, ora desabafos, escritas com lágrimas. Tinha até a marca de gotas nas páginas…

O pai lembra da frase:

“Sem calos na mãos, menina!” Sorriu, também orgulhoso.

Chegando em casa, ambos contam a mim o motivo da reunião. Pergunta-me se queria brincar de ser poeta. Nada entendi… Aceitei!

Quando meu primeiro livro sai, torna-se best seller da quebrada. Só minha família, que é grande demais, fica com a metade da primeira tiragem. Assino livros, autografo, e nunca brinquei de me imaginar nesse lugar conquistado.

Discurso:

Fui sustentada por madeira toda minha vida. Agora, eis que também sustento a minha família com madeira.

Sou ramificação de meu pai. Ele fazia poesia com madeira. Eu também o faço. Comungo do derivado da madeira, escrevo na celulose com o lápis, que também é madeira. Às vezes é com caneta que escrevo: contratos e dedicatórias apenas. Mas a fonte de inspiração precisa ser em folha de caderno e lápis, porque a sinfonia do atrito da madeira com grafite e a folha, inspiram mais! O moço, o guerreiro, Ogum – Ops – meu pai, escreve poesia como móveis. Eu com a folha da madeira.

Peço ao meu pai, de natal, uma escrivaninha de mogno, para mim, Magda.

10 comentários em “Nó da madeira

  1. É lindo de ver que outras histórias de afeto, de conquista e de sucesso envolvem meninas pretas, pretas rainhas, que nascem poeta, que se reconhecem ainda bem jovem num campo que propositalmente foi apagado da história do país. Que muitas meninas pretas se inspirem nesse conto tão feliz. Cheio de nós, de laços, de afetos. Parabéns, Thata!

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  2. Que lindo!!! A convivência com os mestres, de ofício e de vida! Acho que assim nos preparamos para sermos quem somos. A matéria da qual fomos feitos.
    Das poetisas: pura vida!

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