Castelo de areia

Elisa Dias –

Acho que acreditei muito nos contos de fada, fui criança sonhadora, comprei todas as minhas economias a ideia do “felizes para sempre”.

Foi quando num susto você surgiu forasteiro, era um turbilhão de sensações e sentimentos. E num pé de vento carregou meu castelo de areia, meu alento. Que era tão sólido quanto as suas palavras, juras, e o beijo escondido. Ah, o beijo escondido, tão escondido que ninguém, até  eu mesma duvidei se ele existiu.

Me tornei a abelha que se dedicou a buscar as belas flores e colher seu mel, para adoçar sua boca amarga do fel  de tantas outras bocas, e como um cão selvagem e faminto farejava  todas elas , como uma praga o perfume barato da luxúria de uma a uma estava impregnado em você.

Aquilo me consumia e feito viciado bebia o néctar do veneno produzido no mais íntimo de mim. A ideia de tê-lo  me sucumbia me corroía por dentro, doença  maligna , apodrecia um a um dos meu órgãos, devastava minha saúde e minha sanidade mental. Me tornei uma Quimera de mim , devorei tudo que era puro sagrado e benevolente. O mundo de sons e luz, que habitava em mim, tornou-se uma névoa  me obrigando a conviver e liberar as trevas que existiam em mim.

Foi a gota d’água para o transbordar do meu mar de fracos, o mau em mim acessava e tornava viva as feridas do passado e mais que nunca elas sangravam. Carne viva. Colecionei cortes profundos em minha alma, como masoquista tinha apego às minhas feridas, no fim das contas  elas eram as únicas coisas que de fato eram minhas. Muitas vezes gritava para que o mundo  deixasse-as  sangrar em paz. Aquele era o fruto do meu próprio criar. O despertar da minha primeira primavera que contraditoriamente deveria ser tão bela, apenas colhi frutos amaldiçoados.

E você forasteiro, em busca de uma pedra rara, em contra ponto eu a todo momento tentando te provar sou diamante lapidado. A sua eterna busca pelo que nunca existira e se existisse não é do teu merecimento.  Eu me diminuindo cada dia mais para caber na sua concepção do que é perfeição, mergulhei num mundo que não era nem teu nem meu, e sim o respingo de todos os meus desamores resumindo e uma pequena migalha de palavra tua “EU TE AMO’’.

Talvez minhas economias fossem poucas ou o seu amor que era barato demais, no entanto nunca antes havia conhecido outro. Aceito as sobras de carinho. No fim das contas você não era vendaval, era apenas uma brisa de verão, mesmo assim me dói saber que fui o melhor e o pior de mim em todas as minhas versões, decorei minha vida com uma fita de cetim azul, te dei de presente sem questionar o que iria fazer dela.

Eu não reluto mais contra minhas feridas, deixe que elas sangrem até o fim, não tento mais te arrancar de mim como quem amputa do próprio corpo um membro já falecido ou um aborto de filho bastardo. Não faço mais falsas  ameaças dizendo que vou embora, não faço questão que fique ou que vá  pra outro estado atrás do seu ouro dos tolos. Aos poucos você se tornado pra mim o que eu sempre fui pra você “tanto faz”, e nem me resta outra opção a não ser assassinar a criança sonhadora, já que a mulher que tento ser  está sendo enterrada pelos grão de areia do castelo.

6 comentários em “Castelo de areia

  1. Elisa nos traz uma voz tão particular que é universal. A dificuldade de amar dos seres humanos. Num mundo de relações fluídas, cercadas por um machismo estrutural, a mulher é posta como um troféu, por isto, tem que ser muito bem escolhida… o final do texto traz uma ótima resposta aos amores inscritos nesses estereótipos..Um despertar de menina que se vê mulher e não aceitará migalhas!

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  2. O texto traz uma angústia, mas também uma força que vai se construindo para enfrentar o falso encantamento que a sociedade usa para fantasiar o machismo. Muito bom!

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  3. Quantas vezes nos deixamos vagar por amores irracionais, às vezes achamos que nunca cometeríamos determinadas atitudes, mas de fato não nos conhecemos assim tão bem.
    Mas quando uma mulher a ré os olhos, não há nada mais que os faça fechar.
    Angustiante e revelador!

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  4. Um texto de carga imagética e metáforas muito viscerais! Há o peso da dor na medida em que se constrói a consciência e a descoberta do próprio valor e do que realmente merece. É importante falar sobre isso: a romantização das violências quando não se manifestam apenas no âmbito físico. As mulheres não devem aceitar migalhas e a diminuição do que são. Muitas morrem por dentro em suas casas e nas suas relações. É preciso fortalecermos enquanto mulheres! Sempre pensar que o amor verdadeiro é aquele que permite sermos quem somos.

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  5. “Talvez minhas economias fossem poucas ou o seu amor que era barato demais”
    essa frase aqui é arrebatadora!
    Caraio, estou em extase com o texto
    Obrigada

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