Uma manhã a mais, a menos

Celane Tomaz –

Hoje acordei sobre os tantos mundos que me cabem. Olhei a mim, corpo vivo, matéria de calor e movimento entre as paredes claras e estáticas da casa.  A limitada extensão do espaço presenciava o meu grito pela vida do seu lado de fora.

Diante do espelho, observei a pele rosada e macia depois da noite de sono, os lábios descansados, os fios de cabelos como os tempos – desordenados – e o ar de mais um dia igual de ausências e faltas.

Perguntei-me se era a mesma, se já era outra. Se mudava com a mudez da realidade. Se me transformava na metamorfose dessa grande interrupção. Se me movia nas incertezas desse intervalo. Se bebia, comia, dançava, ria, chorava e deitava sendo um ser humano melhor.

Na frente da minha imagem refletida no espelho, lentamente irreconhecível, ao som da trilha do noticiário da TV, olhei no fundo dos meus olhos e vi a chama que queimava ardente o desejo pela vida. A vida que ficou na pausa da rotina, no elevador, no emaranhado das chaves, nas escolas, na caminhada apressada para o trabalho, no namoro com as árvores e as flores do caminho, nas risadas dos encontros marcados e nos ruídos e nas vozes que sonorizavam os meus dias. A vida que ficou na vida dos que me faziam perceber o lugar e a importância da minha existência neste mundo. Tantos mundos – explorados e inexplorados – cabem em mim. E me indago se neste mundo ainda caberei.

Dada aos novos títulos e escritos, lembro de Clarice na estante dos livros sobre a nova “Descoberta do mundo”, palpável e íntimo – tantos mundos – que precisarei redescobrir. Tantos lugares e laços precisarei ressignificar, dar sentido ao incompreensível, sem compreender razões fúteis e inúteis. Na mesma estante, Guimarães Rosa sussurrava sobre a vida que só é possível reinventada.

Ardo pela vida que ficou no tempo contado no ponteiro do meu relógio de pulso – agora paralisado. Somente ouço agora o tímido pulsar da espera no meu peito. A vida perdida e salva nesse con(texto).

Ainda no quarto, afastei as cortinas que impediam o dia de mostrar seu rosto. Abri a janela que sussurrava a brisa de mais uma manhã. Fechei os olhos para tudo. Abracei o sol, beijei o céu, pisei numa nuvem. Senti atentamente, espreguiçada no silêncio, a direção dos raios solares. Permiti que me tocassem e me lembrassem, como carícia de consolo na face, que mais dias assim serão vistos e sentidos na pele, e a reciprocidade sairia pelos poros.  Logo, respirei e pensei fundo: enquanto não saio, permito que possam entrar.

15 comentários em “Uma manhã a mais, a menos

  1. Nossa Celane, tô até sem fôlego!!! Estava ansiosa por teus escritos! Me lembro sempre das delicadezas de suas palavras que saem de tua boca como fotografias de nossos próprios sentimentos. Tão suave e perfumado, tradução de um todo.

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  2. Esplêndido! E com seu belo toque de requinte, num determinado instante me senti muito envolvida, ora na delicadeza poética, ora na sutileza da descrição. Parabéns a esta excelente escritora, Celane Tomaz!

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