Elas contra Tebas

Safo de Lesbos – afresco romano de 50 d.C. (Foto: Museu Arqueológico de Nápoles)

Arlete Mendes –

Como vim parar nessa descaração de me mostrar nuinha em prosa e verso? Tem alguns que me empurraram para essa sem-vergonhice, quiçá ela já estivesse em mim. Daí para a gente arrumar mais algumas despudoradas foi um pulo. Assim nasce nosso descaramento coletivo. Elas contra Tebas. Deixamos de ser “essa espécie envergonhada” há tempos.

O nome? Já leu as tragédias de Ésquilo e de Sófocles? Sim, porque a sacanagem vem desde a antiguidade clássica, afinal, estudei Latim e flertei com um grego para quê? Para dar nomes intrigantes às coisas. Confesso, na verdade sempre fui uma classicista, cada um carrega o defeito que pode, eu carrego este. Mas não sou assim uma pedante que cita Safo, Hesíodo, Plauto, Virgílio, Propércio, a torto e a direita. Até porque uma das partes de estudo da retórica, a memória, me foi muito prejudicada. Faço um uso bem invertido dos valores do mundo clássico. Uma apropriação despropositada. Aemulatio. Ops, perdão, emulação.

Tebas sempre foi um antro de morte e destruição, uma das cidades mais populares da literatura, objeto de disputa de poder. Pai, filho e irmãos, ali era sangue do próprio sangue num looping eterno de ódio e aniquilação. Tínhamos que entrar nessa parada. Romper o ciclo de tragédia. Pense junto, Tebas só foi essa loucura porque nos excluíram da jogada. Antígona não teve o direito de enterrar o próprio irmão. Jocasta sempre ignorada.  Mulher era um pretexto de guerra, mas logo posta de lado no decorrer da narrativa.

Quanto aos poetas se queixam de terem sido expulsos da República de Platão, reclamam de barriga cheia, ao menos foram lembrados. Platão sequer se deu ao trabalho de nos expulsar, nem dava conta da nossa existência. Mulher pensa? Mulher existe? Olha, por muito tempo não existiu não. E quando a história produz Safos, ela nos chega fragmentada e destinada a poucos.

Basta, nos queremos por inteira! Então os puristas que me perdoem, mas nós vamos invadir essa cidade imaginária e tocar fogo em tudo. Quem sabe das cinzas não surge uma nova possibilidade de vida menos cruel, menos corrompida, menos tebana e mais Tebas.

Curioso, Tebas é feminina! A cidade é mulher, mas não quer ser dominada, já deu, né? Tebas é nossa e está livre, nós a libertamos. Ela se pôs de pernas abertas para todos que quiserem adentrar em seu ventre e sob esse aconchego quem sabe escrever uma nova história.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

24 comentários em “Elas contra Tebas

  1. Invadam e toquem fogo. Usem as tochas-palavras para queimar as ideias velhas e rancorosas de um mundo que envelheceu mal. Das cinzas que surjam novos clássicos. E que os puristas se entreguem, capitulem. Tebas não permanecera em pé.
    Que a literatura seja prazer e resistência.
    Elas contra Tebas não se esconde, não se envergonha, não recua.
    Parabens Linda.

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    1. Salve Arlete Mendes e todas as mulheres carbonárias espalhadas pela crosta terrestre! Queimem td o q é vilania propositalmente machista. Fundem, com esse texto/manifesto, uma nova desordem andrógina, herdeira da simbiose revolucionária de Pagu e Carolina. Que as palavras queimem a cara dos conservadores. Conservas são pra comer. Conservadores são pra queimar! Num ritual de dinamite e pirotecnia repleto de estrógeno e progesterona!

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  2. Um texto que nos faz viajar no tempo e refletir tanto sobre as relações políticas quanto de gênero, além de despertar a curiosidade para se aprofundar na literatura grega. Sempre instigante. Puro deleite❤

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  3. Arlete tem, como poucos, a capacidade de juntar crítica e sarcasmo sem ser agressiva. Neste novo texto faz isso com muito jeito, mesmo sendo este uma espécie de apresentação, quase um manifesto. Mas ela é assim, sempre pronta para desconstruir o básico com uma tocha na mão e um sorriso de maldade no rosto. Sapeca de salto alto.

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  4. Que delícia ser uma despudorada!!!!! Esse texto me traz um misto de euforia para acendermos as tochas e partirmos para cima e, ao mesmo tempo, uma indignação (enjoo até) de olhar para trás e ver a história sempre negando esse fogo ardente feminino. Vamos incendiar Tebas e todos!!!!!

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  5. Lindo, forte, e um grande apoio esse trabalho. Ontem reli alguns escritos meus, tava buscando a mim mesma depois de um dia de vários impactos não expressos, mas sentidos. Encontrar vcs aqui, nessa escrita diária, é chão pra existir, mesmo. Como vc diz, “mulher existe? Pensa?”…
    E esse salto do íntimo para a leitura pública… não à toa falamos de nudez… e de subverter a nudez pra subverter o mecanismo da vergonha, que é o que nos coloca sempre caladas…

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  6. Fui reler tudo que sabia de orelhadas antes deste rabisco… e em busca de ressignificações nos vi antígonas, nos vi tebanas, nos vi portas e invasoras num deleite de todas as cores do arco-íris para em tão pouco tempo provocar tantas e tão ímpares reações… quando a razão se encontra com o coração

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  7. Que texto ousado, libertino, atraente. Tanta simbologia numa espécie de manifesto que nos impulsiona à tomada dessa “cidade assolada e destruída”. É de uma nudez que enche os olhos. Que possamos reinventar e ressignificar nosso papel nessa Tebas imaginaria, nosso existir e ser no mundo.

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  8. Gratidão pela exposição despudorada, reveladora, ousada, mas ao mesmo tempo sensível e poética! Grata pela coragem e injeção de força feminina!

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  9. Pois que Tebas se rebele! E é justo! E uma dessas vozes é a sua. E que voz. E que texto! Dialogar com a mitologia me fez lembrar de Borges. Vc desenvolve toda a escrita com inteligência e perspicácia. Muito orgulho de vc e do projeto. Menina grande! Bjs minha prima!

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