Uma dor e uma voz coletiva

Arte: Gabrielle Pedrini

Jesuana Sampaio –

Uma vez, no início da minha juventude, vivenciei uma situação abusiva ao terminar um relacionamento.

Aquele rapaz, que se dizia meu companheiro, no auge da sua possessão e imaturidade ameaçou matar um amigo meu do qual ele tinha ciúmes, caso eu não voltasse para ele. Naquele momento, dentro de mim soou um alarme, chorei de desespero, silenciei. Não lhe disse que voltaria. Não voltei.

Mais na frente, ouvi do primeiro homem que amei profundamente, ao terminar o relacionamento, que eu era o juízo dele. Novamente, o alarme. Que perigo algo tão individual e necessário para saúde mental estar nas mãos de uma outra pessoa.

 Nunca mais quis ser o juízo de ninguém.

Já adulta, e em um longo relacionamento, ouvi deste companheiro que ao vestir aquela minha blusa xadrez as pessoas poderiam pensar que eu era lésbica. Alarme!

Eu, me tornando mulher em meio a todas essas vivências, aprendi com os alarmes a agir de acordo com a minha verdade. Verdade pulsante dentro de mim de que algo não estava certo mesmo antes de saber os termos dados a cada situação.

Eu sentia que eu não merecia permanecer em um relacionamento por ameaça, em um estado constante de alerta. Eu não merecia permanecer em um relacionamento porque sem mim este homem perderia o juízo. Eu não merecia que um homem me dissesse o que vestir independente do que sou ou não. Ninguém merece.

No íntimo, precisamos saber dentro de nós ouvir os alarmes, acolher a intuição que diz como seguir e mais, ela diz o que queremos, como queremos e nos auxilia a se impor no mundo.

Foram várias as situações em que eu passei desde as mais sutis até às mais ofensivas e ameaçadoras que me marcaram profundamente, fazendo com que eu não mais me submetesse a relacionamentos com a perda da minha dignidade e desrespeito a como penso e quem eu sou. Isso não me deixa imune, não. Só me ensina a ouvir o alarme e decidir o que é melhor para mim, conscientemente.

Quando mulheres do meu convívio, pessoas amadas por mim, voltam para relacionamentos abusivos eu sinto uma tristeza profunda. Sinto a mesma tristeza ao saber dos números do feminicídio que no nosso país, infelizmente crescem a cada ano. Como não entristecer profundamente com a dor das mulheres? Com o assassinato das mulheres? E o relacionamento abusivo está sempre a espreita, lamentavelmente. Junto com nossos medos da solidão, da instabilidade financeira, da carência, da ideia romantizada de príncipe encantado, de construir a família ideal ou mesmo de seguir a heteronormatividade imposta socialmente.

Nós, mulheres, não precisamos de um homem para nos sentirmos seguras, nem que eles digam quando  e como devemos interagir com outras pessoas ou o que vestirmos. Não precisamos de relacionamentos que nos deixem sempre em estado de alerta e cessem a nossa liberdade de ser quem somos.

Descer ao mais profundo do nosso ser exige uma coragem medonha, talvez  por isso dizem que coragem é agir com o coração.  Não há outra forma de encararmos a nós mesmas em nossas inseguranças, nossas solidões, nossas carências senão com toda coragem habitada em nossos corações.

Hoje eu digo a mulher que sou que eu a amo mais do que qualquer outra pessoa, acolho a minha história com compaixão, mas também com luta. Digo às mulheres que temos nós por nós, temos voz no mundo, temos uma voz interna que às vezes grita, às vezes cala mas também às vezes canta as belezas da vida. Que a nossa jornada comece com a nossa voz interna para ecoar ao mundo a nossa voz pessoal.

Há também uma voz coletiva: Estamos juntas!

15 comentários em “Uma dor e uma voz coletiva

  1. Uma mensagem direta, clara e escrita em muito bom tom. A personagem nos mostra os caminhos de suas aprendizagens pelo mundo do patriarcado: violento, mesquinho, aniquilador. Traz à memória de que devemos estar atentas aos pequenos sinais que o corpo nos dá quando estamos sob ameaça desse “modus operandi” de nossa sociedade.
    Valiosa leitura, valioso lembrar que não estamos sós.
    Gratidão, Jesuana.

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  2. O que seria do ser mulher se negássemos nossa voz interior, que nos alerta, que nos chama até ela. “Tenha coragem!” “Mergulhe em si!” “Volte maior, seja maior, conectando-se!”
    A mim, muito me tocou o mergulho da mulher em si e a volta cheia de identificação com as outras, com suas vozes e vivências!

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  3. Texto muito forte. Talvez por que seja forte abrir cortinas tão densas e pesadas. Fico pensando em como se naturalizou violências, de modo que muitas delas simplesmente convivem dentro da sociedade e das pessoas e o quanto a não violência é vista como anormalidade! Fora do padrão!!!! Há que se ouvir os alarmes!!!!

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  4. que a intuição sempre seja essa voz doce de alarme! é o melhor GPS a seguir, aquele que se atualiza a cada curva de rio rs

    Parabens Jesuana e feliz por poder ter o privilegio de te acessar de mais pertinho.

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  5. Estou vivendo esta situação neste exato momento. Quando disse que não quero mais conviver com ele, virou um monstro. Ameaças. Aos meus amigos, amigas. Disse que voi tornar a vida deles num inferno. Que vai me vigiar e etc. Fala que me trata bem e que não reconheço, que as minhas amigas estão fazendo minha cabeça, e as chama dos piores nomes possíveis. O que sinto por ele,,depois disso deixou de ser raiva e se transformou em desprezo.

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    1. Olá, Maria, espero que vc esteja bem, primeiramente. uma das primeiras ações de um homem em um relacionamento abusivo é afastar a mulher de pessoas que a apoiariam, lhe ajudariam caso fosse preciso, assim a mulher fica cada vez mais dependente dele e vulnerável. estou a disposição para conversar com você e tenho como te encaminhar a acompanhamento psicológico, caso você queira. Estou a disposição, meu whatsApp é (11) 98414-3926. Um abraço e fique bem.

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  6. Muito bom, Jesa! Concordo com tudo que você disse. Principalmente em relação ao relacionamento abusivo. Quanto à experiência que você viveu, vejo muita coragem e firmeza, no que escreve e também na maneira de ser. É sempre um prazer tê-la como amiga. Tu és um exemplo a ser seguido. Especialmente para as outras mulheres. Abraços!!!

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    1. Meu querido amigo, João. Prazer tê-lo como leitor por aqui, e como amigo também nesta jornada que é a vida. Coragem é agir com o coração, então coragem para gente, sempre!!!
      gratidão pelas suas palavras,
      um abraço!

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  7. como as forças naturais e literárias realmente nos unem inexplicavelmente…
    hoje mesmo uma notícia macabra: 30% de aumento nos índices de violência doméstica… e de pensar na quantidade de mulheres-reféns, isoladas do mundo em suas próprias casas, presas a um agressor por força dessa pandemia louca, que da janela podem estar ávidas por socorro e ajuda, ávidas por respirar liberdade, não de ir e vir, mas de sentir sem satisfazer a ninguém… entre a vontade de bater as asas e a responsabilidade sobre quem ama. Dura é a vida das mulheres, por isso devem ser rígidos os elos que nos unem em busca da libertação de todas nós.

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  8. Que texto cheio de verdade! Um tecto forte, potente e de alcance preciso. Seu texto, companheira Jesuana, é NECESSÁRIO. É luta diária nos cuidarmos enquanto mulheres e nos fortalecermos. É resistência impulsionarmos a coragem uma nas outras. É extremamente imprescindível que dentro das relações, íntimas e sociais, possamos exercer com liberdade a mulher que somos. Obrigada por nos encorajar!

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