Pelas despedidas

Ana Karina Manson

Quando ele falou com olhos marejados sobre as tantas mortes em um país distante, cujo funeral para a despedida dos familiares é impedido, ela navegou nesse mar que nele brotava e viu seu medo de ser um desses. E também ela temeu nunca mais abraçá-lo e menos ainda cumprir o ritual que outrora aprendera nas palavras de sua avó e na despedida de seu avô.

Para a avó, que choraria hoje a terra de sua bisa – a nona, o funeral era uma ação respeitosa, velar o morto era sagrado. Foi assim que aprendeu, tanto que certa vez presenciou num velório, os familiares do morto dormindo nos confortáveis sofás da sala fúnebre e sentiu uma espécie de ofensa, que mal pudera explicar, afinal não era o morto um dos seus.

Já o avô a ensinou com sua morte mais do que a primeira comunhão fizera. Foi na notícia de sua partida que aprendeu a rezar de verdade, que acreditou em algum Deus. Precisou.

E também foi em seu velório que se descobriu forte para ser apoio aos seus; doía nela, mas ajudar os outros amenizava sua primeira grande e irremediável perda.

Talvez por isso hoje perceba que para muitos, a maneira de passar a perda da liberdade, dos encontros com amigos e familiares, os quais alimentam a alma, além da dura distância de suas rotinas é perceber a dureza da vida alheia com ou sem isolamentos forçados e se movimentam em ajudas possíveis  – para ambos os lados.

Pois hoje, quando ouviu de uma amiga a história de Antígona, viajou no tempo e recordou as leituras que fez deste e de outros clássicos no auge dos seus quatorze anos, quando ainda não entendia tão bem essas histórias e menos ainda o valor de um funeral, já que experimentou a partida do avô somente aos dezesseis anos.

E ao ouvir a amiga, foi como se algumas peças se encaixassem, dando sentido àquele passeio por Sófocles, que fizera ainda adolescente (não por escolha, mas por que lia o que achava em casa) e agora isso se ligava ao que o avô lhe ensinara no silêncio da morte.

E montar este quebra-cabeça fez com que ela se sentisse uma espécie de Antígona, que luta para enterrar de maneira sagrada os seus; justo neste momento em que os olhos marejados de seu pai, secretamente, pedira-lhe esse íntimo desejo.

11 comentários em “Pelas despedidas

  1. Lindo texto. A quem é dada a sorte de desejar o último momento e tê-lo? Ajeitar em flores o ente querido. Vela-lo até o coração entender que é hora de ir. Que se cumpriu o ciclo. Que a vida continua com ele apenas dentro do peito, mas que a despedida se deu com respeito.

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  2. Não há como não se emocionar e literalmente não sentir na pele essa angústia da despedida tão perto e tão distante, o tempo todo, pelos nossos, pelos vossos que se foram, ontem hoje amanhã. O coração pela boca constantemente…

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  3. Olá lindo texto e fez recordar que ja passei por vários momentos deste com pai , mãe , avô, avó amigos e irmãos e fui justamente em um deste que notei que não tenho a necessidade deste momento porque não seria uma despedida, seria um até logo .

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  4. Um texto tecido sob o olhar sensível da realidade aterrorizadora que por hora enfrentamos, o sujeito que caminha em suas vivências em busca de repertório para lidar com a dor da separação, da perda, do luto. Trama muito bem feita, aqui se vê os dedos singelos e delicados de quem sente, pensa e de alguma forma nos traz alento e esperança. Os olhos marejam em nós também, os leitores.
    Obrigada, Ana Karina, por nos permitir sentir e esboçar algum entendimento sobre essa dor tão humana e coletiva.

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  5. Muita delizadeza e sensibilidade na forma como transita sobre a dor. Como se constroi emocionalmente a sacralidade da vida e apos dela. A despedida do corpo-matéria se faz, mas o legado dos afetos e ancestral permanece e nos fortalece.

    Já muitos putos sendo vividos por cada um de nós nesse momento tão incerto. Lutos que permitirão nossos renascimentos, medos de outros lutos. Que possamos manter em nós o amor dos nossos e daqueles que partiram. Que limpemos nossas lágrimas e nos abracemos, mesmo com o limite das distâncias marcado apenas em nossos corpos, jamais em nosso peito.

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  6. Seu texto nos leva a pensar na empatia e na despedida. Não há como se furtar. Você pode tentar negar e sofrer ou pode tentar se deixar tomar, se deixar ensinar, pela literatura e pelo contato com o outro.
    E como necessitamos desse contato, do olhar, do toque, da palavra, da presença…
    Humanos de todo mundo, uni-vos!
    No outro…

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