Mal olvido

Juliana da Paz

Um dia ainda lembraremos de como era pedir açúcar emprestado à vizinha para pagar com bolo de fubá no qual se usou o açúcar. Um dia ainda lembraremos como era trabalhar numa tarefa de terra para colher o necessário para viver e não para ficar rico. Como era mesmo sentar-se na calçada, conversar sobre a vida dos mais velhos, dar liberdade às crianças e ver as estrelas?

Sentiremos falta do bolo de cenoura da tia Jerusa, da canjica da tia Zezita, e das festas na casa da tia Luzenira. Lembraremos que não as honramos deixando nossas casas vazias sem compartilhar refeições com familiares e amigos, e mais ainda, dolorosamente, veremos pela lente de um monóculo que elas foram mulheres de festas e aglomerações, donas da força que procria, lavra e emprenha a terra, ensinando a semente a dar luz.

Haveremos de evocar casas de taipa, sem sujeira tecnológica, bioconstrução pura! Feito a da Vó Ana, igual a da tia Maria. Pedindo emprestado à mãe terra e para ela devolvendo com o coração cheio de gratidão, não passei fome, nem sede, nem frio. Tive tempo de observar meu filho.

Chegará o dia que observaremos naquela miséria coisa muito séria: convivência, trabalho coletivo realizados sob cantos e ritmo, lembraremos quando foi mesmo que começamos a olhar só para o nosso umbigo, e nos tornamos um bando de filhos maluvidos.

22 comentários em “Mal olvido

  1. Lindo e tocante. Faz viajar no tempo com um misto de sentimentos… gratidão, saudades, angústia. Fico pensando no privilégio de vir de família grande, que festeja e chora junto, que divide o tanto que tem.
    Fico pensando que se não assumimos a responsabilidade de viver o simples juntos, cairemos em ciladas de viver pseudo-grandiosidades separados.

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  2. Maluvido era uma palavra que estava sempre na boca da minha avó. Eu tinha um medo de ser maluvida. Então, seguia sempre seus passos, fazia tudo o que me pedia. Era simples assim. Escutar os mais velhos, porque eles tinham um domínio sobre toda carga de vida que em nós ainda era inflamável, volátil e instável. Juliana me remeteu a essas memórias, que estão cada vez mais latentes em mim quando penso numa forma sadia de conduzir meus passos pelo mundo. Gratidão pela viagem em suas e em minhas vivências.

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  3. Me faz ter saudades de um tempo que ainda insisto em manter não só na memória…aqui a gente é ainda assim…ainda sofro alguns preconceitos pelas minhas rusgas com a tecnologia. ..

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  4. Esse termo não me é comum…Creio que seja típico do nordeste. Mas, a cena toda narrada, me fez viajar na minha infância… A simplicidade, e o ajuntamento de ovos do seu quintal com o açúcar da Dona Tantas Vizinhas, transpõe os pontos cardeais. Brasil dos simples, dos que tem pouco, vai além…. Viajei na canjica da Tia Zezita!! Beijo Ju!!!

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  5. Tem uma vida inteira que não consigo viver sem isso.
    Tem uma vida que eu quero inteira repleta disso.
    Tem pra lá de uma vida que sei que é isso o que realmente importa, que é isso que me faz inteira.
    Saudade do que nasci pra ser, não vejo a hora de começar de novo a ter uma tarefa de terra pra amaciar com pés e mãos, sentir o cheiro bom que a vida tem e pra nunca esquecer quem me ensinou boa cozinha e bons ouvidos.
    Te amo Juliana, obrigada por esta memória tão grandiosa do barro que levanta e sustenta nossa taboca.

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  6. Um resgate sensorial da minha infância. Senti o cheiro da manga cortada pela minha mãe na calçada, enquanto eu e minha irmã brincávamos sob o sol à pino de verão – nossa estação do ano favorita.
    Fez- me lembrar dos bolinhos que a minha mãe fazia com as próprias mãos com o restante da comida quando eu e minha irmã não queríamos mais comer. Comíamos tudo. Os bolinhos pelas mãos dela transformavam o alimento. Uma prática ancestral de cuidado e afeto. Lembrei das receitas que minha mãe fazia para passarmos as tardes. Receitas de vó.
    Obrigada pelo resgaste dessas marcas em nós, que nos fazem ser quem somos e quem seremos umas para as (os) outras(os).

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  7. Recordei dos tempos que passava férias em Minas Gerais, na roça, e tinha que diariamente levar merenda aos trabalhadores, sentava ali na terra e ouvia muitos causos e histórias, trabalho pesado, conversas leves, cantos, contos, piadas … sol quente e chapéu de palha, eu sempre voltava comendo as broas de Fubá que desconfio não sobravam, era partilha mesmo. Saudade.

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  8. Parabéns Ju!!!
    Suas,São nossas memórias,obrigada por carinho lembrança das festas na casa d minha mãe!
    Lembro – me e vivi quase tudo isso,guardo as noites em uma esteira d palha junto com meus pais brincando d escolher estrelas sem apontar 🤦‍♀️ numa época q ñ tínhamos energia elétrica .👏🏼👏🏼👏🏼

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